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Com a palavra João Carlos Borian

1 – Em A Geada, a tragédia climática de 1975 parece funcionar menos como um evento histórico e mais como uma força que reorganiza destinos. Em que momento você percebeu que a geada poderia ser tratada literariamente como um personagem invisível do romance?

R. Foi durante a pandemia de covid-19 que decidi escrever o livro. A ideia era antiga, mas sempre adiada por conta de trabalho, estudos, família… com a quarentena sobrou tempo para refletir e iniciar a produção do texto que se concretizou em 2024. A geada impactou profundamente a economia e a sociedade paranaense e serviu perfeitamente de pano de fundo para explorar as estruturas familiares, sociais, políticas e até morais da época. Muitas dessas estruturas permanecem, mas agora em cenário rural mecanizado ou em ambiente urbano.

2 – Seu livro evita o tom documental e escolhe a ficção como caminho principal. O que a literatura permite alcançar sobre a memória do Paraná rural que um relato histórico talvez não conseguisse?

R. São universos bem distintos da literatura. De um lado reportar os fatos com dados precisos embasados em datas, números, estatísticas, nomes de pessoas reais… de outro a tentativa de retratar os sentimentos e as sensações vivenciadas, bem como os valores cultuados pela sociedade humana. Tentativa porque não há nenhuma evidência de que seja real e que eu tenha conseguido transmitir.

3 – A primeira parte do romance é construída por múltiplas vozes narrativas em primeira pessoa. Essa fragmentação parece refletir também uma fragmentação social e afetiva daquele período. Como nasceu essa escolha estética?

R. Foi uma forma de se diferenciar da forma tradicional de estruturar um romance. Trazer as crianças e os diferentes adultos na composição social, expondo seus pontos de vista e seus sentimentos. Mostrando as grandes diferenças de percepção, mesmo estando no mesmo contexto.

4 – Há uma tensão muito forte entre permanência e deslocamento em A Geada. Você acredita que o Paraná ainda carrega emocionalmente as marcas desse êxodo rural?

R. Sim, basta conversar com pessoas mais velhas que foram “arrancadas” do mundo rural que revelam um sonho de terem ao menos uma chacrinha, um pedacinho de terra… e mesmo os mais jovens carregam essa ligação. Acho que o gosto pela música sertaneja é muito revelador disso.

5 – Sua trajetória pessoal atravessa o universo agrícola, mas também a leitura autodidata, o karatê, o Direito e o mercado imobiliário rural. De que maneira essas experiências aparentemente distintas moldaram seu olhar como romancista?

R. Acho que ler e escrever são duas faces da mesma “moeda”. Ao ler escritores como John Steinbeck, Fiódor Dostoiévski, Jorge Amado… fui sendo levado ao desejo de escrever. Já o fato de ter escolhido a geada e o drama paranaense como tema do meu primeiro livro tem sim tudo a ver com a minha história.

6 – Você se considera um escritor que escreve mais a partir da observação do cotidiano do que da imaginação pura?

R. Da observação e de ouvir histórias reais. Fico imaginando como Fenando Pessoa criava não só  histórias, mas escritores de estilos diferentes. Isso é incrível. Coisa de gênio.

7 – Seus personagens parecem fugir da idealização do homem do campo. Há dureza, contradição, silêncio e até certo desencanto. Era importante evitar uma visão nostálgica ou romantizada do interior?

R. A vida no campo era muito dura. Enfrentar o sol, a chuva, o frio, longas distâncias a pé, poeira, barro, formiga, marimbondos, esforços físicos extenuantes etc. Os sofrimentos na cidade, especialmente nas periferias, levam à romantização da vida rural. Como diz a letra do Titãs “miséria é miséria em qualquer canto”. Romantizar é um erro que leva pessoas a acreditar num mundo que não existe.  

8 – O romance dialoga com um Paraná muito específico, mas ao mesmo tempo toca em temas universais: pertencimento, sobrevivência, memória. Em algum momento da escrita você percebeu que estava escrevendo não apenas sobre uma região, mas sobre perdas humanas mais amplas?

R. Isso foi pensando mesmo antes de decidir que a geada seria o tema. Sutilmente o texto trata de política, religião, celibato, amor, morte, amizade, exploração…

9 – Você menciona ter aprendido a operar um trator Massey Ferguson 65X aos nove anos. Existe uma relação afetiva entre a mecanização, símbolo de progresso, e a ruptura humana que o livro retrata?

R. Durante a minha infância e adolescência eu tinha fascínio por máquinas e compartilhava da ideia de que representavam o chamado progresso. Com o passar dos anos e de ler autores como Darcy Ribeiro, Boris Fausto, Jorge Caldeira… passei a compreender que as máquinas em nada contribuíram para melhorar a desigualdade brasileira, muito antes pelo contrário. De tal forma que a palavra progresso fica muito mal encaixada neste contexto. Isso sem entrar no mérito das questões ambientais.

10 – Sua formação literária parece bastante plural: da Folha de S.Paulo aos clássicos, passando por leituras técnicas. Quais autores ou obras mais influenciaram a construção da linguagem e da atmosfera de A Geada?

R. Já citei alguns nas respostas anteriores. Meu autor favorito é o Chico Buarque, tanto nos romances quanto nos pemas musicados. Ele consegue penetrar nas “almas” com maestria e isso me inspira muito. Ainda na adolescência eu li “Vinhas da Ira” de John Steinbeck que foi um divisor de águas. Fiquei muito impactado com a história e com a capacidade do autor em traduzir os sentimentos e os limites da bondade e da crueldade humana. Outros como Humberto Eco, Otto Lara Resende, Carlos Heitor Cony, Rui Castro.

11 – Há algo profundamente simbólico no fato de sua estreia literária acontecer depois de uma vida inteira de leituras e experiências acumuladas. O que mudou em você para que A Geada finalmente fosse escrito em 2024?

R. A verdade é que há muito tempo tenho vontade de escrever. Durante esses anos escrevi algumas crônicas e poesias. A dificuldade foi conciliar o trabalho e a família. Sabendo que escrever não poderia ser encarado como atividade profissional, portanto deveria esperar eu fazer o tal “pé de meia”.

12 – Muitos romances brasileiros sobre o campo trabalham a miséria ou o heroísmo. O seu livro parece interessado sobretudo na dimensão humana dos personagens comuns. Você acredita que a literatura brasileira ainda deve ao interior contemporâneo narrativas mais complexas e menos estereotipadas?

R. Sim, não tenho dúvidas sobre isso. Complexidade é a palavra que mais uso para falar do homem do campo. Muita gente tem uma ideia simplista da atividade rural, achando que plantar, colher e cuidar de animais é algo fácil e até singelo. Quando na verdade demanda muito saber. O agricultor lida com seres vivos (plantas e animais), com ferramentas (máquinas e utensílios), com pessoas e com o mercado (compra de insumos e venda da produção). Portanto, é um profissional altamente qualificado.

13 – Embora A Geada esteja ancorado na prosa, há momentos em que o romance parece operar pela condensação e pela imagem, quase como se a linguagem buscasse uma respiração poética diante da aridez do mundo retratado. O poeta interfere no romancista durante a escrita? E de que maneira a poesia modifica sua percepção da memória, do silêncio e da paisagem?

R. Sem dúvida há um interesse prévio em provocar diferentes sentidos em uma mesma experiência. Misturar sentimentos e sensações. Mas, não é algo controlado ou controlável. Surge naturalmente com o desenrolar da escrita.

14 – Você transita entre a poesia, a ficção e uma trajetória de leitor construída ao longo de décadas. Pensando na formação literária de alguém que deseja compreender melhor a experiência humana através dos livros, quais seriam os cinco autores fundamentais na sua trajetória e o que cada um deles lhe ensinou como leitor e escritor?

R. Essa é a pergunta mais difícil. Acho mais importante citar as obras e seus respectivos autores, afinal foram obras específicas que transformaram a minha vida. Uma simples lista de autores poderia ficar muito vago.

 

1 – “Vinhas da Ira” de John Steinbeck: Despertou-me para a dimensão da própria literatura. Essa incrível arte que transcreve e transforma vidas. O drama da família que é obrigada a migrar em condições precárias, tendo como pano de fundo a história da rota 66 rumo à Califórnia e o sonho de uma nova vida. Li o romance quando ainda era adolescente e despertou em mim o interesse por um dia escrever. Este livro foi tão importante para mim que divido a minha vida em antes e depois de tê-lo lido.

2 – “Estorvo” de Chico Buarque: O livro é inteiro escrito em primeira pessoa e sem diálogos. O protagonista vaga pelo Rio de Janeiro e por uma fazenda abandonada. Os devaneios do personagem traduzem aflições universais. Isso me tocou de forma muito forte porque muitas das “paranoias” pareciam tiradas das minhas próprias angústias existenciais.

3 – “O Povo Brasileiro: a Formação e o Sentido do Brasil” de Darcy Ribeiro: Ensinou-me mais do que qualquer livro de história o quanto a diversidade de etnias e de culturas representam a nossa maior riqueza. Uma nação forjada principalmente pela violência, mas que por inúmeras razões, muito bem fundamentadas pelo antropólogo, se manteve unida. Essa obra foi fundamental na minha formação e na minha compreensão dos “brasis”, sua complexidade, suas contradições e suas riquezas.

4 – “O Homem que Amava os Cachorros”, do cubano Leonardo Padura: O romance intercala três histórias intrigantes e tem como pano de fundo os ideais socialistas e a saga de Leon Trotsky fugindo da perseguição de Josef Stalin que golpeou os ideais da revolução e instalou uma ditadura sanguinária. O romance revela uma profunda pesquisa histórica misturada à ficção, denunciando a manipulação como estratégia política. Ajudou-me a compreender os bastidores do poder que, independente do regime, obedece a uma lógica que mistura o controle da informação e o uso da força bruta.

5 – “Judas” do israelense Amóz Oz: É uma mistura de ficção, ensaio e história. Tipo de obra que mais me impressiona. Através deste livro eu consegui ter mais clareza sobre as raízes do conflito israelo-palestino. Ao mesmo tempo que retoma a trama que envolveu Judas e a condenação de Jesus, mostrando um lado pouco revelado ao mundo ocidental, dominado pelas religiões cristãs. Isso tudo sem deixar de mergulhar em aflições humanas universais, como riqueza/pobreza, moralidade, sexualidade…

Com a palavra Ivan Dias
Autor do poema Interiores e de 5 livros.

Natural de Sete Lagoas (MG) e radicado em Londrina (PR), Ivan Dias construiu sua trajetória entre a ciência e a poesia. Professor por 35 anos no Departamento de Física da Universidade Estadual de Londrina, publicou diversos livros na área científica e cinco títulos de poesia: Apanhado de um Outro Olhar (2009), Olhares do Interior (2010), O Céu das Coisas (2016), A Rua que eu habitava (2017) e Drumondiando (2024).

Em seu mais recente trabalho, o vídeopoema Interiores, Ivan mergulha em reflexões sobre o tempo, a memória e o olhar íntimo sobre a existência — temas que atravessam sua escrita de maneira delicada e filosófica. Nesta conversa, o autor fala sobre o processo criativo, suas influências e o encontro entre a Física e a poesia.

1 – O videopoema Interiores revela uma imersão sensível e reflexiva no universo das emoções e memórias. Como surgiu a inspiração para esse poema e o que o motivou a transformá-lo em vídeopoema?

R. Eu estava saindo de um período depressivo e pude observar que, à medida que refletia mais sobre mim mesmo e me cuidava com uma psicóloga, os motivos que me levaram a esse período ficavam cada vez mais claros. Saí desse processo melhor, e inclusive me dispondo a publicar as poesias que havia muitos anos eu escrevia, mas que ainda tinha dúvidas sobre publicar ou não. Daí comecei a publicar e em determinado momento, submeti um de meus trabalhos a um projeto do LONDRIX, o Poesiavoando, e um poema meu foi selecionado. Isso em 2022. Esse é o terceiro áudio visual de poesias minhas, sempre incentivado pela Chris e, no primeiro, pelo falecido Antônio Mariano. Espero ainda fazer outros.

2. O título Interiores sugere uma viagem para dentro (da memória), do corpo e da alma. Que “interiores” quis explorar ao escrever esse texto?

R. Interpretei o período depressivo como um período de escuridão. E à medida que me tratava, mais autorrefletia, era como se fosse descobrindo, a cada dia, coisas que tinham ficado ao longo de minha trajetória, que me possibilitavam jogar alguma luz sobre os porquês que estavam escondidos. Assim fiz uma correlação entre esse período e, como está no poema: “Precisei entrar na escuridão da noite para ver as estrelas” e entender que estava fazendo “uma caminhada para o interior de meu próprio chão”.

3. Você tem uma longa trajetória como professor e pesquisador em Física. Como essa experiência científica dialoga com sua escrita poética? Há um ponto de encontro entre ciência e poesia em sua obra?

R. Sempre gostei de escrever, desde a adolescência. Optei pela Física por querer ser um cientista, mas o que posso dizer é que a vontade de escrever (poesias) precede minha carreira científica. Alguns se admiram de um Físico fazer poesia, mas gosto de dizer que “Físico também é gente”!! Rs. Não posso dizer que haja alguma confluência entre a carreira científica e a poesia.

4. Sua produção literária já conta com cinco livros de poesia. Como percebe a evolução de sua escrita poética desde Apanhado de um Outro Olhar até Drumondiando?

R. Em meus primeiros trabalhos, nos três primeiros livros, a temática era bem solta, sem nenhum fio condutor para o conjunto de poesias. A partir do quarto livro, “A rua que eu habitava”, procuro desenvolver o trabalho de forma mais enquadrada, se posso assim dizer, dentro de uma linha mais específica.

5. Seus versos trazem uma observação atenta das coisas simples e um olhar sobre o cotidiano. Que autores ou leituras mais influenciaram sua forma de ver e escrever o mundo?

R. O autor que mais me influenciou foi Carlos Drummond de Andrade. Nele encontrei um jeito de escrever sem a necessidade da rima, sem a “armadura” da métrica. Gosto de dizer que a liberdade abriu suas asas sobre mim; métricas, rimas poderia fazer versos com, mas sem a obrigação de fazê-lo.

6. Como foi o processo de criação do vídeopoema? Você participou das decisões visuais e sonoras ou preferiu deixar que a direção interpretasse o poema livremente?

R. O processo de criação passou por uma discussão inicial com a Chris Vianna, e o Carlos Fofaun, em que decidimos conjuntamente, a partir de uma proposta inicial de 4 poemas, qual deles seria o escolhido. Tomada a decisão, eles desenvolveram a ideia livremente. É um processo interessante, muito interessante, ver como outras pessoas interpretam o que se escreveu e como traduzem em outra linguagem. Assim, prefiro deixar a interpretação para a direção.

7. Você é mineiro de Sete Lagoas, mas vive há muitos anos em Londrina. Essas duas paisagens — Minas e o Norte do Paraná — influenciam de modos diferentes sua poesia?

R. Não acho que haja influência. A propensão para escrever já se revelava em minha adolescência, lá no interior de Minas. Escrevi poemas, muitos que até mesmo deixei de lado, nem mesmo os tenho mais, em todos os lugares por onde passei.

8. Compartilhe como e quando começou a escrever poesia? Houve algum momento ou leitura decisiva que o levou a se assumir como poeta?

R. Não me lembro exatamente quando comecei. Sei que foi em Sete Lagoas, na adolescência, quando fazia o ginásio. Nos livros textos da disciplina de Português, havia poesias, de autores como Drummond, Olavo Bilac, etc. Acho que isto me despertou para a escrita. O momento em que tomei a decisão de publicar e me assumir como poeta ocorreu em 2009, quando lancei meu primeiro livro “Apanhado de um outro olhar”.

9. Há algum novo livro de poesia em preparação? Poderia nos contar um pouco sobre o caminho poético que está explorando neste próximo trabalho?

R. Estou finalizando um novo livro, “Palimpsesto”. Deve ser publicado no próximo ano. Nele trato das fontes múltiplas de inspiração para os temas das poesias e remeto o leitor às influências que me levaram a escrevê-los.